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quarta-feira, 16 de maio de 2007

Dezembro 2001 - Editorial : Não enodemos o passado !

O pensamento de Kenneth Auchineloss, que nos acompanha desde a primeira edição deste Jornal, encima o cabeçalho como que um grito de alerta, dirigido àqueles que teimam em continuar a macular tão nobre expressão da nossa cultura popular: o folclore. “Aprender com o passado, e não chafurdar nele”. É uma mensagem forte, tão clara quanto evidente.

Ter-se-á que, um conjunto de pessoas que se preparou para representar e divulgar a vertente cultural do seu povo, deve fazê-lo com dignidade e respeito, quanto a memória das pessoas exige. Honrar os seus hábitos e costumes, na forma de trabalhar e de se divertir, que hoje constituem um manancial rico de tradições, e a expressão nobre da sua cultura. E se um conjunto de pessoas assume essa representação, rebuscada nos tempos, estará a mostrar, efectivamente, folclore. Se optar pela fantasiada mostra de danças, de cantigas e dos trajes, então não afectam à sua representação a vertente folclore, mas antes se constituem numa formação mal idealizada que não pode – nunca! – passar por “representação folclórica”. Porque não procederam a uma pesquisa e recolha das tradições. Tão simples como isto...

A representação de um passado deve, naturalmente ser antecedida de um profundo trabalho de investigação da forma como vestiam, bailavam e cantavam os avoengos, recuando no tempo até onde as memórias vivas possibilitarem a recolha de elementos, que se passam à representação. E quem esta atitude não tiver não recria o passado, e logo o folclore não passa pela sua interpretação. Fantasiar pessoas com trajes inventados, que em nada correspondem à realidade de uma época distante, e caldear essa ‘máscara’ com danças coreografadas por hábeis curiosos, e usar cantigas engendradas por fracos “poetas”, é chafurdar numa poça lamacenta, onde reina a incapacidade e a ignorância. O bom senso deve imperar pelo princípio da dignidade, do decoro e da honra. Tanto quanto nos merecem aqueles fizeram a história, escrita com nobreza, decência e muito brio.

Manuel João Barbosa



“A mais importante de todas as lições que a História pode ensinar é que os homens não aprendem muito com as lições de História” (Aldous Huxley)



Dezembro 2001 - Debater o Folclore sem peias




Debate Nacional sobre Folclore reuniu em Santarém folcloristas e estudiosos

“Vamos discutir sem peias os problemas do folclore nacional”. O desafio foi lançado por Lopes Pires, de Viseu, no início do debate nacional sobre Folclore, organizado pelo nosso Jornal e levado a cabo no dia 17 de Novembro. Diversas personalidades afectas ás questões da cultura popular tradicional e muitas dezenas de folcloristas, vieram de todo o país, incluindo os Açores, à procura de ideias e normas conceptuais que possam ajudar na área da representação folclórica, desenvolvida na acção dos grupos de folclore.

O antropólogo Aurélio Lopes deu a deixa: vamos procurar encontrar ideias e conceitos que, de uma forma operativa, possam ajudar a separar as águas dentro da representação folclórica do país”. E deixou a proposta: “até que ponto podemos considerar como folclore a essência daquilo que era a usualidade local? O que se pode recolher corresponde ou não a folclore? Os folcloristas devem levar daqui linhas orientadoras que venham a valorizar a representação folclórica”. Nelson Ferrão, sociólogo, apresentou um conjunto de definições e orientações, com vista “a revitalizar o movimento folclórico”, apresentando um conjunto de linhas conceptuais de folclore. Logo o debate se iniciou, com a assembleia a pôr na mesa questões e dúvidas. E muitas foram as intervenções que ao longo do dia fizeram ouvir vozes ideias sobre as vertentes ‘cultura tradicional - folclore - etnografia’. Foram naturalmente defendidos intransigentemente os valores culturais tradicionais, “um assunto sério que não pode continuar à mercê de pessoas que se servem do conceito ‘folclore’ para ridicularizar situações de desagrado, e que são tão usuais nos meios politiqueiros da nossa praça”, referiu o Insp. Lopes Pires, que lançou ainda um apelo: “há necessidade de nos pormos de acordo, sem darmos a ideia de que nós próprios não nos entendemos uns com os outros. É fundamental definirmos o que à folclore e como se deve representá-lo”.


A formulação do “conceito”

Os mais de quarenta especialistas, convidados como representantes institucionais ou a título pessoal debateram durante todo o dia as diversas perspectivas em presença, tanto teóricas como de implicação prática, tanto históricas como situacionais, daí emergindo importantes conclusões conceptuais que se espera venham a constituir inestimável instrumento operativo para os agrupamentos de todo o país.

De salientar, especialmente, a formulação do tão esperado “conceito de Folclore” que constitui, indubitavelmente o mais importante passo dado no sentido da necessária uniformização conceptual desta área da cultura tradicional.

Assim, após animado debate e tentativas de síntese propostas pela mesa (e exigíveis pela clareza pretendida), aceitou-se como versão redactorial final que: “Folclore deverá ser entendido como expressão da cultura tradicional”.

Também o conceito complementar de “Tradicional” mereceu alargado consenso (embora não necessariamente pacífico) considerando-se como tal, “vivências, comportamentos, usos e valores, que qualquer grupo social, relevante culturalmente, utilizou ou foi portador, durante o tempo suficiente para lhes impor uma marca local, independentemente da sua origem e natureza particular”.

Paralelamente o conceito de “Etnografia” foi tacitamente aceite como correspondendo, “a uma prática de pesquisa, caracterizada pela descrição, muitas vezes pormenorizada, dos aspectos mais relevantes dos padrões culturais, na sua forma, utilização e funcionalidades respectivas”.

Assim responsáveis, directores e folcloristas de todo o país, venham a assumir estes pressupostos como mecanismos instrumentais à sua disposição, susceptíveis de introduzir alguma ordem conceptual onde tem imperado o aleatório, alguma objectividade onde tem dominado a subjectividade, alguma cientificidade onde tem proliferado o empirismo, alguma assunção de interesses globais onde têm preponderado, excessivamente, os interesses individuais e de grupo.

Dezembro 2001 - VII Jornadas Técnicas de Etno-Folclore em Coimbra



Personificar a identidade

Durante dois dias decorreram em Coimbra as VII Jornadas Técnicas de Etno-folclore, organizadas pela Associação de Folclore e Etnografia da Região do Mondego (AFERM), com o objectivo de preservar os valores tradicionais populares da região.

Foram diversificados os temas levados à discussão em mais uma edição das Jornadas Técnicas que a AFERM leva a efeito desde há seis anos na cidade de Coimbra, onde está sediada. A intenção é de sensibilizar os diversos grupos de folclore filiados, para a preservação dos costumes tradicionais locais, e à digna representação dos aspectos etnográficos e folclóricos. Várias entidades oficiais e particulares ofereceram o apoio à iniciativa, que contou ainda com o apoio do nosso Jornal.

Na sessão de abertura, diversas personalidades deram a seu aval à realização das Jornadas, nomeadamente o Governo Civil de Coimbra, a Câmara Municipal de Coimbra, a Federação do Folclore Português (FFP) e a Associação de Defesa do Folclore da Região dos Templários. Manuel Dias, o presidente da AFERM, fez questão de referir a “fraca representatividade de muitos grupos folclóricos”, que como tal se assumem. “A representação fica muito aquém do desejável”, afirmou o dirigente, que, no seu entender, muito contribui “a proliferação de grupos que se formam indiscriminadamente”. Manuel Dias reforçou: “É altura de reagirmos contra os abusos de representação, com efeitos perniciosos para a vertente da cultura popular”. [...]

Dezembro 2001 - O Jornal Folclore no Canadá


A convite de um grupo de folclore de representação tradicional açoriana, o nosso Jornal esteve no Canadá para se inteirar de uma realidade socio-cultural, integrada numa associação constituída no seio de uma comunidade lusa-açoriana. Ao primeiro contacto, logo foi sentido o conforto de quem atenuava um pouco da saudade Pátria-mãe. Porque a saudade mata-se com um gesto, com uma palavra, com uma nota de música. As raízes de uma cultura de oito séculos continuam fortes de alentosa seiva, e tudo é feito para manter as tradições, juntando num painel multicolor os costumes e os hábitos da terra-natal. As cinco quinas da saudosa Pátria se expõem e exibem em local nobre do centro de convívio comunitário, e a música, a gastronomia tradicional e o pé de dança à boa maneira dos tempos idos, fazem esquecer a separação de muitos milhares de quilómetros.

Foi assim que vimos a vida da comunidade lusa radicada em Montreal, na província do Québec, no Canadá. O Centro Comunitário Português de Laval, inaugurado em 1988, dispõe de condignas instalações, sob a égide da Paróquia de Nossa Senhora de Fátima. Aqui se desenvolvem inúmeras iniciativas de carácter cultural e social, organizadas pelas diversas instituições portuguesas sedeadas no Laval, uma vila de 300 mil habitantes, grande parte provenientes das mais diversas etnias, com relevância para os Gregos, Arménios e Árabes. A população portuguesa está calculada em cerca de dez mil, divididos entre continentais, açorianos e madeirenses.

O Grupo Folclórico Estrelas do Atlântico, foi fundado há cerca de vinte anos, e na região é o único agrupamento; todos os demais estão sediados na região de Montreal. Escolheu para a sua representação a cultura tradicional dos Açores, porque o ‘cordão umbilical’ da quase totalidade dos seus elementos se liga ao arquipélago. E fá-lo com impressionante desvelo e exigente cuidado. Mas, do Grupo Estrelas do Atlântico vamos falar na próxima edição, deixando o espaço de hoje à divulgação de uma das suas iniciativas populares-tradicionais: a festa do São Martinho, onde as castanhas e o vinho português animaram um serão de convívio e de confraternização, protagonizado por cerca de trezentos luso-açorianos. O momento foi ainda pretexto para o ‘apadrinhamento’ do grupo de folclore, uma distinção oferecida ao nosso Jornal.


Uma festa portuguesa, concerteza

Laval, província do Quebéc, no Canadá, 10 de Setembro, véspera de S. Martinho. A noite agreste, chuvosa e fria, não afastou centenas de portugueses de comparecerem à festa da tradição: festejar o S. Martinho. O magusto, onde as castanhas e o vinho novo foram reis, foi animado com excelentes interpretações de Fado, uma magnífica rábula cómica e o folclore luso, naturalmente. Um pouco pela região, especialmente na cidade de Montreal, mais de uma dezena de associações recreativas de portugueses ali radicados, reuniam igualmente e festa e confraternização centenas de emigrantes lusos.

No Centro Comunitário do Laval, pertencente à Associação Portuguesa de Nossa Senhora de Fátima, a preparação da festa começou cedo, com o enorme salão a engalanar-se para receber mais de trezentos convidados. E logo ficou lotado, porque a palavra saudade é mais forte que o conforto do lar. A iniciativa pertenceu ao Grupo Folclórico Estrelas do Atlântico, um agrupamento criado no seio da comunidade portuguesa local, com forte influência social e cultural dos Açores.

“Fomentar o elo histórico-cultural” – nas palavras do coordenador da festa popular no início da grande reunião – é sempre o objectivo destes encontros, realizados a pretexto disto ou daquilo. Diversas entidades marcaram com a sua presença o apoio à iniciativa, como o Consulado de Portugal em Montreal, representado pela Drª. Maria Luísa. Ainda José Paiva, presidente da Centro Comunitário do Laval, o director do nosso Jornal e Joaquim Pedrosa, um emigrante de forte influência social junto da comunidade.

A “noite de cultura”, como foi anunciado, porque de cultura vária se recheou o programa anunciado, conseguiu efectivamente os intentos. O Fado marcou presença por uma excelente voz de uma emigrante apaixonada pela música e cantigas do seu país, já que para além do Fado canta em diversos grupos de folclore.

quarta-feira, 11 de abril de 2007

Novembro 2001 - Editorial : Os concursos de folclore

Os textos publicados na página 15 desta edição, sobre os concursos de folclore, são por demais elucidativos de alguma falta de consenso – que há mas não devia haver... – acerca da representação folclórica. Se as mentalidades não se alteram, nada mais resta que continuarmos a navegar em conturbadas águas, na área da representação do folclore, na sua essência.

Com efeito, a apreciação, para efeitos de classificação, de várias representações etnográficas e folclóricas não faz qualquer sentido quando estão em causa realidades distintas de projectos que diferem, quase sempre, abismalmente uns dos outros, tanto no campo da etnografia e do folclore, como nas vertentes cultural e social, influenciadoras da forma de viver, trabalhar e divertir. Ora, cada representação tradicional, quando assente num trabalho sério de estudo da realidade cultural da sua área, tem a importância que tem, e não será por ser mais modesta ou menos espectacular, que é inferior àquela que encanta pelo movimento das danças ou pelo colorido dos trajes.

Entenda-se de uma vez por todas a complexidade que envolve as competições folclóricas, arredadas que estão – completamente! – de qualquer objectivo social ou cultural, mas antes embrenhados em interesses comerciais, onde a questão financeira conta. “Não há folclore melhor ou pior. Há folclore!”, já escreveu nestas páginas, sobre os concursos, o nosso colaborador Dr. Aurélio Lopes, antropólogo e estudioso das questões da cultura popular. Entendemos isso de uma vez por todas, e deixemos de pactuar com manifestações sórdidas de quem não possui sequer competência quanto baste para analisar, muitas vezes, a sua própria cultura.

O Director

Novembro 2001 - Grupo Tradicional “Os Casaleiros”, de Casais de Britos (Azambuja)

A representação

“(...) Caprichosos no amanho das magras leiras, pequena fortuna de grandes sonhos, de onde à força de coragem e afincado trabalho, saíam as primeiras novidades do ano que a terra dava, e eram os mimos que abasteciam a praça (mercado) da vila, onde chegavam manhã cedo, carregados nos ceirões dos burros, ou em cestos de vime transportados à cabeça das mulheres, mais por vaidade de mostrarem os louvores arrancados à aridez do seu modesto torrão com o suor virtuoso dos seus braços”.


Retratam-se sumariamente neste parágrafo de “Memorial”, escrito por Sebastião Mateus Arenque, as gentes dos Casais de Azambuja. Povo ligado à terra e que à terra deu a força dos braços para desbravar montes e vales, um rincão prometido. A representação etnográfica do Grupo Tradicional “Os Casaleiros assenta nos costumes – no trabalho e na festa – desse povo para quem a vida foi madrasta. Do cavador aos diversos trabalhos da vinha (enxertador, podador, vindimadores) ao valador, ao malhador, às mondadeiras, aos varejadores e ás apanhadeiras de azeitona, são, enfim, pedaços de uma etnografia rica e muito própria. O ‘espelho’ dessa vivência, recuada um século, é-nos colocado à frente em cada apresentação dos “Casaleiros”. Prova-se isso mesmo pela reportagem fotográfica que registámos e que aqui deixamos.

Novembro 2001 - Sebastião Mateus Arenque

“Os livros e o folclore são o sol que me aquece, e por ambos nutro a mesma paixão”

Sebastião Mateus Arenque. Uma lenda, um mito de tradições. O folclore corre-lhe pelas veias, na pureza daquilo que é povo, na memória de um passado vivido humildemente. Conheceu a vida madrasta. Cedo, menino e moço, pisou torrões de seca terra em busca do magro salário, comeu rabos de sardinha, ouviu o que não devia. A sua cultura feita povo transbordou da ‘universidade’ da vida para uma vivência de agruras. De algumas venturas também. Rendido ás coisas da tradição, Arenque é hoje ‘mestre’ com sabedoria de catedrático na área da cultura popular, que lhe deve o registo do seu estudo em sete livros editados. É a alma mater do Grupo Tradicional “Os Casaleiros”, hoje nosso caminheiro dos costumes da Azambuja.
(…)

Quais as reacções que sentiu à sua volta quando fez aparecer o grupo dos Casais?
As reacções foram as piores. A minha avó costumava dizer: “Enquanto houver mundo, há panelas sem fundo”. O aparecimento do Grupo Tradicional “Os Casaleiros”, com o meu nome na frente, suscitou a ideia de uma “cópia” do rancho Ceifeiras e Campinos, o que foi considerado por muita gente como um atentado fatal para o rancho da Azambuja. Esqueceram-se que os Casais também são parte integrante da freguesia, que a sua população tem um passado cultural muito rico, e que merece, como qualquer outra terra, o direito à divulgação dos seus valores culturais e tradicionais. Nenhum azambujense teve a coragem de investigar essa realidade, tão própria e tão diferente. Fi-lo eu, e tive a coragem de o mostrar publicamente. Assim, aqui está o Grupo Tradicional “Os Casaleiros”!
(…)

Aceita a opinião generalizada que a representação dos “Casaleiros” tenha representado uma pedrada no charco do folclore do Ribatejo?
Não é meu timbre orientar os meus actos pelas opiniões alheias. O que faço é baseado em critérios que me parecem justos, e aceito as críticas construtivas. Não me parece que a representação do Grupo Tradicional “Os Casaleiros” seja um exemplo de virtudes. Perfeito, só o será uma divindade. O termo ‘uma pedrada no charco’ aplica-se a algo que pretende revolucionar um sistema, segundo o meu entendimento. Isso não foi o espírito que presidiu à formação do grupo. Se “Os Casaleiros” se apresentam com um projecto diferente, isso deve-se exclusivamente a um trabalho sério e consciente, rabiscado com muito cuidado nas entranhas do passado de uma comunidade humilde. A representação tem de ser, forçosamente, diferente.
(…)

Os seus pontos de vista, em relação ás coisas da cultura tradicional, são tidos como ‘palavra de Lei’. O que acha que devia ser feito para exigir dos grupos arredados da representação folclórica uma acção consentânea com as raízes tradicionais?
Os meus pontos de vista em relação ás coisas da cultura tradicional são os que me dita a consciência, accionada pelos conhecimentos práticos que recolhi na universidade do povo, o que não me dá o direito de impor leis. Naturalmente, no folclore como em tudo mais, cada cabeça tem a sua sentença. Essa prosápia será talvez a razão maior dos erros que aparecem nas representações folclóricas. A meu ver, talvez haja da parte de algumas pessoas algum desconhecimento da matéria, o que me parece descabido, dado que já há bastante literatura que possa elucidar e guiar na formação de um grupo que se pretende realmente de folclórico.
(…)

Entre o folclore e a edição de livros, onde tem a maior paixão?
Casei os livros com o folclore há muitos anos. Ambos são o sol que me aquece, e por ambos nutro a mesma paixão. Se não houvesse folclore, eu não escrevia livros. Marques Rebelo escrevia: “Nenhum minuto é vazio desde que possamos sonhar”.




Viagem p’lo Tempo’ revela a veia poética de Sebastião Arenque
Numa feliz edição da Junta de Freguesia de Azambuja, datada de 2000, Sebastião Mateus Arenque mostra-nos a sua veia poética ao falar das ruas, travessas e vielas que conheceu na ‘sua’ Azambuja. Em cerca de setenta sextilhas, Arenque faz um retrato da vila, com saudade e alguma nostalgia. “Nesta viagem pelo passado, Sebastião Arenque guia-nos por ruas que calcorreou vezes sem fim, por becos e travessas onde brincou e sonhou, onde viveu dores e alegrias, desta Azambuja feita de paz dos humildes, da alegria dos simples, de luta, de suor”. É nestes termos que José Carlos Batalha, em nota introdutória da publicação, define o trabalho de Arenque.
Como aperitivo, deixamos estas sextilhas: “Vi Azambuja singela / Pequenina igual a ela / Humilde e tranquila / Depois de muito pensar / Deu-me para visitar / As velhas ruas da vila”. Ou: “A Travessa de Palmela / Embora não seja bela / Faz figura ao pé das feias / Recordá-la só eu sei / As passadas que lá dei / C’o sangue a ferver nas veias”. Ainda: “Assim termino a viagem / Com ela fica a mensagem / De tudo aquilo que vi / Velho compêndio d’história / Que retenho na memória / Do lugar onde nasci”.