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sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Jornal Folclore / Setembro 2008 – Editorial : O respeito pelo traje

Decorria o Festival. Um elemento masculino, num rodopio da dança, deixa cair-lhe a cinta (ou faixa). Sai da roda de dança e num gesto de raiva, enrola a peça e irado atira-a ao chão. A cena decorreu precisamente na parte frontal do palco. Para natural espanto da plateia, que decerto classificou o desespero do bailador como um acto reprovável e indecoroso.

Já o temos dito que não virá mal ao mundo, e o grupo não sairá inferiorizado por isso, se o componente que deixa escapar a cinta (ou faixa), como o chapéu ou o barrete, ou à mulher libertar-se-lhe o lenço ou uma chinela, que interrompa o movimento da dança para recuperar a peça do traje. Seria assim que os bailadores de outros tempos, de uma forma instintiva, decerto procederiam; nunca deixariam pisar e emporcalhar aquilo que lhes terá custado os olhos da cara, na época.

Imaginemos a dificuldade de uma bailadora a concluir a dança calçada com apenas uma chinela, como muitas vezes temos visto, com os riscos físicos que isso pode trazer. E a péssima imagem que oferece o repisar constante dum lenço, dum chapéu ou duma faixa.

Se na representação do grupo está implícita a maior fidelidade dos factos folclóricos, ficará bem, também neste gesto, a retratação do acto, tão natural noutros tempos.

Que a mensagem se espalhe. Entre directores, ensaiadores e componentes dos grupos de folclore.







Jornal Folclore / Setembro 2008 - Nota Editorial : Federação do Folclore Português - A preferência da informação

O presidente honorário da Federação do Folclore Português, Augusto Gomes dos Santos, comunicou-nos em 8 de Junho – dia da parada do folclore nacional realizada na Feira Nacional de Agricultura, em Santarém – que se havia deslocado a Itália para receber uma distinção que lhe foi atribuída por uma instituição Italiana, pelos relevantes serviços desenvolvidos em favor do folclore português. Fomos então informados que iríamos receber da FFP informação detalhada e fotos da cerimónia, com vista à sua divulgação no Jornal Folclore, o que acedemos a fazer dentro do melhor espírito de colaboração institucional. Sem a recepção dos referidos elementos nas semanas sequentes, necessários para a elaboração da notícia solicitada, entendemos advertir, num encontro pessoal ocasional, o presidente da Federação, Fernando Ferreira, para a falta dos prometidos elementos. Tal facto causou, aparentemente, algum desconforto ao líder dirigente, acusando de alguma negligência os respectivos serviços administrativos.

O Boletim Raízes do Povo, editado pela Federação, deu então relevo ao caso na primeira edição da segunda série (Julho/Agosto), conferindo ênfase à notícia. Publicou várias fotos do acontecimento, com Augusto dos Santos integrado e exibindo a distinção, quando na altura fomos informados que não havia fotos da cerimónia que incluíssem o laureado, mas que nos forneceriam uma foto do troféu.

Compreende-se a vontade dos dirigentes federativos de dar em primeira-mão a notícia do acto que ocorreu em Maio último, no seu Boletim, distribuído em Agosto. A informação do Boletim chega aonde chega.

A comunicação social, e particularmente o Jornal Folclore, foram uma vez mais preteridos pela Federação sobre uma informação que ao próprio movimento folclórico nacional dirá respeito; não só ao movimento federado. Não fomos nós a solicitar a notícia, mas o galardoado, membro Honorário da Federação, a oferecê-la. E os dirigentes a prometerem a sua divulgação.

Quando as unhas não dão para tocar a guitarra…







segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Jornal Folclore / Agosto 2008 - Editorial : A mensagem

Dois emissários, idos de Portugal, rumaram à Venezuela para espalharem a mensagem da pedagogia sobre a representação, tanto quanto possível acertada, do folclore luso naquele País da América Latina. Na edição anterior alertávamos para a necessidade urgente de levar o conhecimento do Folclore português às comunidades emigrantes que mantêm viva a raíz cultural e tradicional do seu País. Os mentores dos projectos associativos lamentam-se da falta de esclarecimento e de informação cabal sobre as práticas que devem servir de base ao seu trabalho de retratação etno-folclórica. “Queremos fazer bem, mas não temos quem nos diga como fazer”, queixam-se os responsáveis dirigentes.

“Ao Estado português competirá ajudar a uma tão necessária e urgente acção de pedagogia e de sensibilização, patrocinando visitas de pedagogos folcloristas, com reconhecidos conhecimentos técnicos”. Dizíamos no trabalho da edição anterior, reconhecendo a premente necessidade de ajudar o movimento folclórico português no seio das comunidades no estrangeiro. Com efeito, a sensibilidade dos governantes não passa pela preservação dos valores culturais, em desrespeito pelas recomendações da UNESCO, que apontam para a “salvaguarda do património cultural popular dos países membros, nomeadamente as tradições e o folclore”, garantindo às comunidades o “direito de terem acesso à sua própria cultura tradicional”, obrigando-se ainda os países a fornecerem “apoio moral e económico aos particulares e às instituições que estudam, divulgam, cultivam ou detêm elementos da cultura tradicional popular”.

Contudo, do Estado português não se vislumbra uma réstia de atenção ou ajuda às acções de preservação da cultura popular. Dentro do movimento há um angustiante recato de não levantar a voz perante o poder instituído – ou de aparecer no Terreiro do Paço reclamando, quanto mais não seja, o cumprimento das recomendações da UNESCO, subscritas pelo Estado Português. Enquanto isso, continua a faltar uma instituição que represente o movimento de forma colectiva junto dos órgãos nacionais competentes.







Jornal Folclore / Agosto 2008 - Nota Editorial : O folclore infantil

O nosso bom amigo e colaborador Lino Mendes divulgou nalguma imprensa – entre a qual o Jornal Folclore – uma crónica contestando a existência de folclore infanto-juvenil. No seu entender não há folclore infantil. “Os jogos e modas de roda dos tempos de escola não devem ser esquecidos mas encarados como um complemento, mesmo não se considerando folclore”, alega o folclorista de Montargil, defendendo que, em sua opinião, “na verdade não há folclore infantil; o que temos é infantis que fazem folclore”.

Não entendemos muito bem a ilação de Lino Mendes, afirmando de forma peremptória que “não há folclore infantil”. Depois diz que há “infantis que fazem folclore”. Ainda mais baralhados ficámos, quando, sabe-se, o folclore está “feito”, ou seja, está “criado”. E vai tempo! Quanto muito o que hoje se faz é representá-lo.

Posto isto, perguntamos: como devemos classificar as cantigas e modinhas de roda habituais nos divertimentos das crianças de outros tempos? E as ingénuas brincadeiras? E os jogos? Como as próprias fatiotas de corte e modelo acriançado. Tudo isto não é folclore? E se interpretadas por crianças, como devemos denominar esse grupo de petizes que interpretam os ditos trechos que são tidos como folclóricos?

Lino Mendes entende ainda que as crianças podem vestir-se como os adultos. “Isso acontecia, o que não vamos naturalmente é apresentar alguns trajos como os de noivos, lagareiro, carroceiro, cavador’, para mais não citar”, assegura. Concordamos. Como outros: os campinos, os ceifeiros, as mondadeiras, e tantos outros ofícios e ocupações que só aos adultos competia fazer. O folclorista remata: “Estão assim erradas as designações de “Grupo de Folclore Infantil” e de “Festival de Folclore Infantil”.

Num tão conturbado movimento – o movimento folclórico – julgamos haver no escrito (e entendimento) de Lino Mendes matéria para avivar mais alguma perturbação, a juntar àquela que já tanto atrapalha a representação do folclore. Entendemos o propósito da formação das escolas de folclore adulto, que visam a aprendizagem do reportório do grupo adulto para posterior recrutamento. Nesta circunstância não existirá um grupo de folclore infantil, mas crianças a prepararem-se para virem a integrar a secção adulta. Tal será o desígnio da Escola Infantil e Juvenil do Rancho de Montargil, de que Lino Mendes é dirigente. Resta saber até quando a apresentação pública destas formações cabe no espírito da representação folclórica infantil, já que são participadas por crianças. Temos assim que um rancho infantil de folclore não será o mesmo que um grupo de folclore infantil. Ambas as formações têm o direito de coexistir, cada qual na sua função; aos primeiros cabe a opção pelo projecto do espectáculo e da formação e aos segundos a retratação dos factos folclóricos.

Porque nestas coisas há razões que a própria razão desconhece, que outras razões contraponham a nossa análise.







sexta-feira, 25 de julho de 2008

Jornal Folclore / Julho 2008 - Nota Editorial : Componentes partem

O fantasma da emigração voltou! Apesar do apregoado “jardim de rosas”, os portugueses partem, mundo fora, à procura de trabalho e de melhores salários. Os números da emigração sobem copiosamente. Só o Luxemburgo recebeu nos últimos meses milhares novos emigrantes portugueses, segundo o cônsul de Portugal naquele país, que regista a maior taxa de emigração portuguesa. Um acréscimo desmedido relativamente aos anos anteriores.

O cenário faz acentuar a carência de elementos no movimento folclórico. “Este ano já perdemos seis componentes que emigraram”, dizia-nos angustiado o dirigente de um grupo folclórico do Norte do País. Este caso é apenas um exemplo daquilo que se passa no seio de muitos outros agrupamentos. À procura de trabalho que não encontram por cá, ou de melhores salários, os folcloristas partem, deixando reduzidos os grupos que participam. “Fui obrigado a emigrar outra vez”, lamentava-se um elemento de um grupo folclórico, que anos atrás havia sido igualmente obrigado a procurar trabalho além fronteiras.

O panorama torna negra a actividade de muitos grupos, que têm de recorrer a elementos infantis para suprir as faltas dos mais velhos que partiram. Grupos há que já cessaram a actividade por falta de elementos masculinos, devido à emigração. É uma realidade escondida que sem vergonha os dirigentes não negam. “Pensávamos que esta situação não voltaria mais, e afinal caiu-nos à porta outra vez”, lamentava-se um responsável dirigente. A solução passa ainda pela inclusão de pares femininos entre os bailadores, o que, contudo, não obsta a que o grupo perca qualidade no seu trabalho de retratação popular; antes pelo contrário.

Teme-se agora que a corrente emigratória provoque mazelas tão profundas que levem à extinção de muitos grupos. Uma conjuntura de triste memória em décadas atrasadas.







Jornal Folclore / Julho 2008 – Editorial : Gato escondido…

As melodias e cantigas que há muito se popularizaram, tornando-se conhecidas pela beleza melódica e até poética que os caracteriza, e que foram rebuscadas na raíz popular de determinadas regiões, são (também) usufruto de outros grupos, quase sempre por razões que a própria razão desconhece. Em muitos casos, trata-se de cópias descaradas, que um eventual trabalho de recolha local não providenciou como devia. Prefere-se o plágio, rebuscando em discos ou cassetes de temas que garantem o agrado das plateias. O logro é conhecido, e já mereceu algumas vezes reparo nas colunas deste Jornal. Mas o embuste torna-se maior quando a prática parte de grupos responsáveis, que anunciam um trabalho sério e respeitador das pesquisas e recolhas um dia feitas (supostamente), com vista a integrarem o respectivo espólio de temas tradicionais da região que o grupo plagiador representa. O logro terá mesmo merecido o aval e a aprovação superior de entendidos das questões culturais populares, quando ao dito grupo é aferida qualidade representativa.

Contudo, os aludidos temas ou se escondem da apreciação dos ditos especialistas do foro folclórico, ou passam na rede da selecção, que deveria filtrar esses erros, devendo deixá-los escoar para um buraco de onde não pudessem mais sair.

Vem este arrazoado a propósito das músicas que se ouvem sem qualquer diferença melódica entre a região de origem e aquela que a “aculturou” de forma abusiva por um seu representante. E confirmada fica a falsidade quando logo se escuta a letra respectiva, com todas as quadras cantadas sequencialmente de acordo com a construção original. A circunstância revela que se trata de um plágio atrevido e reprovável. Ou é coincidência?

Entre grupos responsáveis, é tempo de deixarmos de “comer” gato por lebre. Já nos basta os “pitéus” que nos servem as formações recreativas ou de inspiração folclórica.







quarta-feira, 4 de junho de 2008

Jornal Folclore / Junho 2008 - Editorial : Folclore em remix

O estilo musical remix é uma tendência dos novos ritmos que fazem o gozo da juventude de hoje. O termo significa “remisturar”, introduzindo uma batida animada e efeitos adicionais, criando uma versão mais ritmada. É uma versão criada nos anos 80 na nova música.

A forma ligeira e apressada com que alguns grupos folclóricos exibem as suas melodias – obviamente que nos referimos a grupos de folclore e não a grupos recreativos – leva-nos a pensar que o ritmo remix terá chegado à música folclórica. Ponderadas as circunstâncias, poderemos concluir que algo estará errado na forma de tocar certos trechos do nosso folclore. Em primeiro lugar porque os instrumentos musicais à época a que se reportam as pesquisas (e a representação) não teriam capacidade para desenvolver ritmos tão rápidos. Depois, porque as pessoas dançavam para se recrearem e mesmo conversarem. Logo os movimentos da dança teriam de obedecer a ritmos vagarosos, descansados, quase nostálgicos.

Estranho assim vermos o reportório de certos agrupamentos totalmente transformados, obedecendo a um “estilo remix”. Como se compreende que após três danças, os bailadores de certos grupos se mostrem tão afadigados, esgotados de energias?

Passa por aqui a adulteração primeira do Folclore. Não se respeitando o ritmo das melodias, os passes das danças são trocados por falsos andamentos, que outrora não faziam parte da cadência das modas populares tradicionais.

Vale a pena pensar nisto…







Jornal Folclore / Junho 2008 - Nota editorial : Sem tecto

“No futebol gastam milhões”, comparava o dirigente do um prestigiado grupo de folclore os gastos que a sua autarquia investe no desporto relativamente às migalhas que destina à cultura. É o exemplo do que acontece com muitas outras autarquias. A quantidade de votos que a massa eleitoral do desporto pode deixar nas urnas, comparativamente com um número mais reduzido de eleitores afectos à cultura, leva a atenções mais favoráveis às associações desportivas, sobreponde-se a uma imparcial e mais justa atribuição de apoios – e mesmo de cooperação institucional – relativamente às associações culturais.

O grupo em causa tem andado ao longo de uma já longa existência de casa às costas. A recente reestruturação do organismo que tinha sob a sua tutela a propriedade do edifício onde o grupo detinha um pequeno espaço para ensaiar, levou ao despejo. Postos na rua, dirigentes e componentes deitaram contas à vida. Cerca de meio século a promover a cultura popular da região não lhes dá o direito a um tecto digno, quando a sua cidade se inclui no número das que se endividaram até mais não, para oferecerem um estádio de futebol ao Euro’2004, mas que no pós-evento, foi votado quase ao abandono.

Nem o estatuto de Utilidade Pública ou a medalha municipal de Arte e Cultura ajudam a instituição a dispor de um espaço social digno. Completamente alheia a mais um despejo de uma das suas mais prestigiadas associações – que ao longo de várias décadas tem promovido pelo País e pelo mundo os valores culturais da região, fazendo ainda eco dos seus aspectos turísticos e do património edificado – a autarquia deixa o grupo confiado à sua sorte e à carolice de quantos o constituem, não revelando qualquer propósito para resolver a ingrata situação em que, uma vez mais, se encontra a sua associação. “Estamos outra vez na condição de grupo sem abrigo”, lamentava-se desesperado o presidente do rancho, que começa a revelar alguma impaciência para levar o barco a bom porto. O alheamento da autarquia aos sucessivos despejos do grupo é desmotivador e leva ao desânimo. “A carolice tem limites”, deixa o aviso o dirigente.







quinta-feira, 1 de maio de 2008

Jornal Folclore / Maio 2008 - Nota Editorial : O sentido das coisas

Um frio relacionamento entre os principais responsáveis da Federação do Folclore Português e do Jornal Folclore, que decorreu nos últimos três anos, levou à ausência de noticiário e de reportagem das iniciativas da Federação neste Jornal, quebrando uma desejada cooperação institucional. Por consequência, um impertinente marasmo aconteceu no amigável relacionamento pessoal entre o presidente da Federação e nós próprios. Os motivos são publicamente conhecidos: a incómoda linha editorial do Jornal, que não foi compreendida e nem sempre recebida a contento em relação a algumas decisões do organismo. Um leal aperto de mão (e um sincero abraço de amigos) selou uma velha amizade entre os dois responsáveis e pôs um ponto final em algum azedume aparecido nos tempos mais recentes.

Espera-se que ora avante, os responsáveis visados encontrem a via da harmonia e da paz institucional, guiados pelos efectivos princípios éticos: o respeito mútuo pelo dever à crítica construtiva no que concerne a este órgão de comunicação social, e no impreterível dever de cooperar com o órgão de comunicação escrita da especialidade, no que cabe à Federação. Sempre nos norteou o espírito de colaboração com a FFP, na promoção e divulgação das iniciativas e actividade do organismo, manifestado aliás, desde as primeiras edições, com a publicação de largas dezenas de notícias e reportagens, e só interrompido por um incompreendido corte de comunicação da instituição com o Jornal.

O direito à crítica alinhada está consagrado no estatuto deontológico do jornalista, superiormente sancionado pela Alta Autoridade para a Comunicação Social. Talvez a regra não tenha sido entendida quanto devia, em determinada altura, pelos responsáveis dirigentes da Federação.

Que melhores ventos soprem ora em diante, concluindo que os tempos de aziago não foram benéficos sequer para o próprio movimento folclórico.





Jornal Folclore / Maio 2008 – Editorial : A escola e o folclore

Um destes dias fomos abordados por uma anciã, que simpaticamente quis elogiar a publicação do jornal Folclore, que admira “pela forma entusiasta com que defende o Folclore”, uma vertente da nossa cultura, que considera “muito importante” mas que no País é “simplesmente esquecida” pelos poderes instituídos, criticava com firmeza. E reforçou: “Nalguns países que conheço o Folclore é parte integrante dos currículos escolares” e assim “os jovens ficam com uma outra percepção do Folclore do seu País”, ao mesmo tempo que “viajam pelas raízes, valorizando os seus conhecimentos”.

Percebemos então que se tratava de uma ex-professora liceal, motivada pelas questões da cultura popular. Inquiriu-nos sobre eventuais diligências que porventura tivessem sido feitas junto do Ministério da Educação, com vista a que o Folclore e as tradições constituíssem parte complementar do sistema de ensino. A resposta negativa terá deixado a ex-docente entristecida, confiada que estava que, posteriormente à sua aposentação, o currículo escolar teria sido já valorizado com o tema sobre cultura popular.

Relembrando a experiência que obteve neste campo, perante o que testemunhou em escolas que visitou noutros países, a nossa interlocutora lamentou “uma continuada pobreza de espírito” dos nossos responsáveis educativos, pela apatia a um vector cultural de primordial importância, como é a cultura popular. “Continuamos incultos e rudes perante os outros, pelas sistemáticas barreiras que se opõem ao enriquecimento cultural”, lamentou a ex-educadora.

Aparentemente parece prevalecer ainda hoje a teoria dos antigos correligionários governamentais, quando entendiam que o povo não deve ser culto, porque enquanto houver falta de cultura, bem podem os governantes dormir descansados. Há conhecimento de iniciativas isoladas de docentes que ensinam o Folclore em períodos extra-curriculares e que merecem ameaça com processos disciplinares, porque o tema “não faz parte do currículo escolar”. Subentende-se…





domingo, 30 de março de 2008

Jornal Folclore / Abril 2008 - Nota Editorial : O folclore sem peias

Noticiava recentemente certo jornal regional do Ribatejo, que determinado grupo folclórico da sua região se havia representado numa festa de emigrantes lusos que decorreu numa cidade da Holanda. E fez questão de ilustrar a notícia com uma foto do agrupamento, onde aparecem dois componentes, supostamente a dançarem (?) com impetuosa e enérgica determinação uma dança onde o elemento básico são dois desmesurados paus, um dos quais a ser arremessado sobre a cabeça de um dos bailadores, que em destra arte circense aguenta o arremesso. Dizem que é um “fandango com paus”. Mas, provado já foi por especialistas e estudiosos do folclore ribatejano, que em tempo algum, nos bailaricos populares, os fandanguistas ribatejanos ousaram dançar com tão aparente impetuosidade, notória na acção “bailada” mostrada na foto. Consta mesmo que a “dança” já provocou algumas bordoadas, fazendo sérias mossas onde o pau bate no corpo do “adversário”…

Em nome do folclore continua a fazer-se os mais incríveis disparates, até mesmo partindo de grupos responsáveis, como é o caso do grupo visado na notícia, já que se apresenta como membro da Federação do Folclore Português. Tivemos acesso ao relatório de vistoria técnica efectuada ao grupo em causa em Março de 2003, que se refere à fantasiada “dança” da seguinte forma: “Entre estas [as danças] uma há que suscitou viva controvérsia, recomendando-se de forma frontal a sua exclusão do reportório do rancho – o “Fandango de Varapau”. Se o grupo optar por manter a referida dança no seu reportório, obviamente que não seremos favoráveis à sua manutenção como membro efectivo da Federação do Folclore Português”. Do parecer foi dado conhecimento ao grupo em questão e à Federação.

Um pseudo-folclore, espectacular e aliciador de aplausos, não pode continuar a misturar-se com ajuizadas e cautelosas representações tradicionais. Em detrimento de acertadas reproduções folclóricas, fidelizadas à tradição popular, opta-se pelo bonitinho inventado, gerador de frenéticas palmas, que sempre envaidecem quem nele intervém. A humildade da dança folclórica sempre dispensou ovações, porque era mostrada como componente recreativa, e não como um elemento motivador de palmas e aclamações.

Ordem na representação precisa-se. De forma particular nos grupos tidos como responsáveis dentro do movimento folclórico, e que merecem a confiança dos órgãos directores.





Jornal Folclore / Abril 2008 – Editorial : Missas “Folclóricas”

Vêm aí os Festivais e com eles o acto litúrgico que quase sempre se incluiu no respectivo programa da realização: uma celebração da religiosidade popular.

Convencionou-se então cognominar o acto religioso de “missa folclórica”. O criador de tão singular denominação, porventura mereceria ser laureado pela insólita descoberta do rótulo com que apelidou a acto. O defeito português logo levou à imitação, e as cópias da notável designação surgiram na maioria dos Festivais.

Não se sabe por que carga de água a designação foi engendrada, e de alguma forma quase idolatrada. Certo é o erro da nomeação do acto em si. “Folclórica” porque se integra numa actividade folclórica? Então o erro é ainda maior. Folclórica porque integra grupos de folclore entoando cânticos religiosos? Nem assim o acto fica merecedor da referência.

A missa é apenas um facto religioso que não deve ser confundido com religiosidade popular e a ligação do povo à Igreja e aos variados actos religiosos. Sabemos quão ricos são muitos temas do nosso folclore que foram criados à sombra da Igreja, como a beleza melódica e poética de variadíssimos cânticos à Divindade cristã. Mas isso é uma outra parte do folclore.

Ainda que na missa se integrem cânticos da religiosidade popular, não devemos por isso dizer que a liturgia seja folclórica.





quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

Jornal Folclore / Março 2008 - Nota Editorial : 12 anos

Completam-se doze anos de ininterrupta publicação deste Jornal. A história já se conta nas páginas centrais desta edição. Mas uma nota há a salientar na prossecução do projecto: a caminhada quase solitária do editor. Com efeito, uma equipa pensada desde a primeira hora tarda a ocupar os lugares desde sempre vagos, na eventualidade de um mal-estar do único impulsionador. O corpo redactorial continua à espera doutras canetas, doutros toques nos teclados dos computadores, doutras mensagens. O projecto não pode perdurar se continuar suportado apenas num braço-motor, e uma suposta solidez não será o garante da continuidade. Porque, como diz aforismo popular, sem ovos não se fazem omoletas. O Jornal só manterá um regular publicação enquanto alguma engenharia redactorial criadora de textos estiver activa. Como de temas interessantes que valorizem o conteúdo. Porventura terá apenas passado pela cabeça de poucos o esforço que a dita engenharia redactorial exige para estimular a pesada máquina e fazer que cada edição apareça periodicamente cada mês, sem peias nem atrasos. É preciso reflectir sobre isto.

Fazer um jornalismo de secretária nunca foi o nosso ideal, nem isso foi desígnio do padrão que também idealizámos para o projecto editorial que criámos há doze anos. Decidimo-nos por um jornalismo vivo, feito dentro do acontecimento. Daí a reportagem, a entrevista, a informação de tudo quanto nos chega ao conhecimento sobre o movimento folclórico. As viagens sucedem-se. O tempo não conta, mesmo que as horas sejam as da madrugada. Tudo assente numa pura carolice, não remunerada. Para que conste.


Jornal Folclore / Março 2008 - Editorial : O efeito persuasor

I – Num tempo não distante, um conhecido político-governante propôs utilizar parte do orçamento da sua administração em acções de pedagogia junto das camadas jovens, procurando sensibilizar para o arrepio ao consumo de drogas. E então terá dito: “Se a medida livrar um só jovem que seja do caminho pernicioso do consumo de estupefacientes, então já valeu a pena o investimento”.

II – O
Clube de Jovens Folcloristas Portugueses em França desenvolveu um projecto de sensibilização junto dos grupos folclóricos de expressão portuguesa sedeados em várias áreas consulares de França. Chamaram de Portugal individualidades da área do folclore, com vista a espalharem a mensagem da pedagogia para um melhor desempenho dos grupos de representação lusa. Durante dois anos foram várias as acções, individualizadas e colectivas, oferecidas ao movimento folclórico português em França. Como que um lançar da semente à terra, a palavra do estímulo para um melhor trabalho de retratação etno-folclórica espalhou-se. Ficou para reflexão.
Pegando na sentença do político, dir-se-á: se pelo menos um grupo enveredar pelo caminho acertado que a mensagem apontou, já terá valido a pena o esforço dos
Clube de Jovens Folcloristas Portugueses em França. Humano e económico.

III – O Jornal Folclore noticiou na sua edição de Fevereiro que um grupo de jovens folcloristas de Levallois, luso-franceses, estiveram em Portugal para recolherem elementos com vista a reestruturar o seu rancho. Prova provada de que a mensagem deixada pelos emissários de Portugal surtiu algum efeito. Agora, junto dos jovens de Levallois. Quem sabe se, já de seguida, no seio de outros responsáveis folcloristas sedeados noutra qualquer região de França.

Epílogo – A semente começa a germinar e a fazer rebentar novas árvores. Os resultados irão pautar-se por aquilo que os folcloristas-dirigentes e os folcloristas-actuantes quiserem que seja.


segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Fevereiro 2008 - Nota Editorial : Falsas chamadas [da Federação do Folclore Português]

Não é verdade que o Jornal Folclore tenha recebido em tempo recente informação das realizações da Federação do Folclore Português, sendo assim descabidas afirmações como: “foram convidados, não vêm porque não querem”. Bem sabemos que a um jornalista lhe assiste o pleno direito de comparecer em qualquer evento público. A ética exige, contudo, bons princípios, como se informe e se convide quem se achar por bem comparecer aos eventos ou iniciativas da entidade organizadora. Uma notada ausência da comunicação social dos vários eventos da Federação, é a prova provada da falta desse preceito.

A novidade da chegada à nossa Redacção, na antevéspera do último Congresso, dando conta da sua realização e da tomada de posse dos novos corpos sociais e convite para estarmos presentes – única informação da FFP recebida nos últimos anos! – levou mesmo a que tivéssemos divulgado a originalidade da informação entre o nosso grupo de colaboradores.

Naturalmente que o envio de eventual informação para este Jornal dispensará o anunciado “aviso de recepção”, como igualmente também já foi ventilado por alguns dirigentes do organismo.

Sendo estranha a ausência de informação a um órgão de comunicação da especialidade, (outros órgãos da informação escrita e falada se queixam da mesma omissão), é no mínimo anormal um frio distanciamento e de cooperação dos principais dirigentes da FFP para com um Jornal que trata em exclusivo da temática.

Sem carência de textos para preencher o planeamento de cada edição do Jornal, porventura a Federação terá necessidade de ver promovida a sua actividade e divulgadas as suas realizações. O ex-Vice-Presidente Ludgero Mendes bem se esforçou para suprimir a lacuna, prometendo no início do anterior mandato que passaria então a haver um assíduo contacto com a comunicação social, muito em particular com o Jornal Folclore, enquanto órgão da especialidade. Certo é que os serviços administrativos do organismo nunca chegaram a inscrever os vários órgãos de informação no seu cardápio de endereços, tendo em conta uma ausência sistemática de informação, que sempre foi silenciada. Um estranho lápis azul terá mesmo imposto que conhecimento o Jornal Folclore não recebesse qualquer informação.

Tão claro quanto convincente!





Fevereiro 2008 - Editorial : A apatia

Um inquérito realizado no Algarve junto da população estudantil concluiu-se por uma preocupante apatia da camada jovem ao folclore. O entendimento dos jovens sobre a vertente cultural é praticamente nulo, enquanto a receptividade à dança folclórica é vã. Por isso, afirmam “não participar nem apreciar este tipo de dança”. A análise dos resultados revelou ainda um desconhecimento considerável face à dança folclórica tradicional por parte dos estudantes, que revelaram “gostar pouco, ou mesmo muito pouco deste tipo de dança, além de não assistirem com frequência a espectáculos de dança folclórica”.

A imagem caricata e ridícula que subsiste do Folclore estará – uma vez mais – associada à insensibilidade e ao desapego de boa parte da juventude a esta vertente cultural. A pedagogia tarda e o desempenho não melhora o conteúdo. As más representações proliferam, com amostras quase sempre grotescas, sem atracção nem encanto, sem motivo nem interesse.

Os bons projectos são uma escassa minoria num universo abissal de representações tidas como tradicionais. Passeiam-se quase “embaraçados” por entre tantas outras formações desadaptadas da sua realidade tradicional / regional. O seu lugar passa a secundário e sempre despercebido, porque o desempenho não foi espectacular, aparatoso e pitoresco!

A informação do conhecimento tarda. Logo na escola. A pedagogia da cultura é como que uma prelecção ilegal numa aula que seria também de formação.

Enquanto isso, centenas chafurdam na poça, imperturbados perante a irresponsabilidade da representação. Com a culpa dos organismos e instituições com obrigação de regular e fazer disciplinar o movimento.





sábado, 22 de dezembro de 2007

Janeiro 2008 - Nota Editorial : Federação do Folclore Português, que esperanças?

Não queremos ser aves agoirentas. Tão pouco trocar o mel pelo fel. Tão só desejaríamos que a velha máquina enferrujada levasse um desejado e necessário tratamento contra a corrosão. Falamos naturalmente da acção dirigista da Federação do Folclore Português, cuja equipa cessante acaba de ser empossada para novo mandato.

Há três anos anunciou-se “um novo ciclo” na vida da Federação. E foi grande a expectativa que se criou, tendo em conta a confiança depositada nos órgãos eleitos e no respeito pelas declaradas boas intenções. O programa de acção enchia de esperança quantos se ligam ao organismo por força da acção dirigente, fazendo correr a reuniões e assembleias centenas de directores e simples activistas do movimento folclórico. Em cada sessão os ânimos aumentavam, torcendo todos para que as promessas anunciadas fossem cumpridas. A Federação prometia ser um “clube” de membros folclóricos de “elite”, enquanto o apoio técnico se intensificaria na ajuda à representação etnográfica e folclórica, como assim outras cooperações eram oferecidas aos grupos filiados. Muito foi prometido, em nome de um melhor desempenho dos grupos membros da Federação. O movimento folclórico inserido no seio da Federação passaria a ser exemplo para o “outro” movimento, aquele que não integra o organismo de Arcozelo.

As reuniões de formação e informação sucediam-se pelo país. As palmas que os dirigentes ouviram foram muitas, porventura merecidas, quanto mais não fosse pelas palavras de esperança e de alento ao bom trabalho. As boas vontades uniam-se à volta do projecto de um “novo ciclo”. A expectativa, contudo, durou o tempo de um sol de Inverno. Os ânimos de quantos sempre se mantiveram entusiasmados começaram a esfriar. Cabisbaixos, já nem as reuniões repetitivas (quais plágios das antecedentes) encorajavam os voluntariosos folcloristas. As informações repetiam-se. “Andei trezentos quilómetros para ouvir o mesmo”, escutámos a uns desanimados dirigentes no final de uma das programadas assembleias. A casa continuava desarrumada, com desalinhos que começavam logo a partir da soleira da porta.

E assim, iremos concerteza continuar a termos um movimento folclórico com uma imagem destorcida, propícia a referências depreciativas e alusões desdenhosas e humilhantes. Não por culpa das conscienciosas formações, que não necessitando de conselhos, trilham o caminho do decoro e da respeitabilidade pelos valores tradicionais que se propuseram honrar.

Estimaríamos muito que acontecesse (na realidade) o tão propalado “novo ciclo” na vida de Federação no triénio que ora se inicia, e que se verificasse o oposto ao desapontamento ao anterior exercício. Todos decerto levantaríamos as mãos num forte aplauso e numa viva aclamação pelo bom desempenho. E o folclore nacional ganharia.


Manuel João Barbosa
jornalfolclore@gmail.com
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Janeiro 2008 - Editorial : Federação do Folclore Português, a continuidade?

Vão tomar posse os “novos” dirigentes da Federação do Folclore Português. Trata-se basicamente de uma recondução dos elementos que integraram os órgãos directivos do triénio anterior. O balanço da acção foi positivo? A pergunta fica no ar à procura de um dado animador. Outrossim: poderá alimentar-se expectativas em relação aos tempos que se seguem? Uma luz aparecerá finalmente no fundo do túnel? Um incomodativo marasmo vai manter-se? Estas serão, porventura, interrogações que neste momento pairam em quantos militam no movimento, fora e dentro da Federação. Do muito que se esperava do exercício iniciado em Janeiro de 2005, o que encontramos cabe numa mão pequenina. Ou algum acto ou decisão relevantes nos terão passado ao lado? A passividade (ou indiferença…) da acção directiva terá permitido um tranquilo e sereno descanso dos “guerreiros”. Membros combatentes teriam preparado batalhas, para, de forma amigável, derrotar a indisciplina e a desobediência representativa. Era uma luta (entre outras) a travar num campo onde alguns elementos persistem na insubordinação. As lanças não chegaram a ser arremetidas, em nome da paz conciliadora e da concórdia. Também em respeito pelas amizades… E o campo continua devassado por pérfidos adversários das regras e dos preceitos que regem estatutariamente o território federativo.

Uma nova voz integrante do novo elenco, em substituição, já avisou que não irá a Arcozelo “somente para matar uma mosca”. Esperamos que assim seja, conhecendo a pertinência e o rigor de acção do novo dirigente. E que essa virtude faça derramar na mesa de decisões o vírus da almejada e rigorosa acção do organismo. É o que todos desejamos.


Manuel João Barbosa
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domingo, 2 de dezembro de 2007

Dezembro 2007 - Nota Editorial : Promoção das regiões

O Governo está a preparar um calendário de promoção turística das diversas regiões do País. Há no orçamento muitos milhares de euros para as respectivas campanhas, que têm em vista a incentivar desfruto do turismo interno, à semelhança da campanha “Vá para fora cá dentro”. Alargada ao estrangeiro, fomentam-se as belezas naturais e arquitectónicas e convida-se à visita.

Espera-se, contudo, que não voltem os famigerados emblemas do Estado Novo, quando elegeu nos velhos tempos estereótipos tradicionais para promoção do País, como a farda de gala do campino do Ribatejo, e outros mal alinhavados símbolos, representativos do Algarve, do Alentejo, do Alto Minho, da Madeira e Açores. E por aí fora.

O erro estimulou a asneira entre o movimento folclórico nacional. O Ribatejo viu maculada a sua representação etnográfica com uma superabundância de campinos, que foram – são, ainda hoje – figuração exclusiva de muitos grupos, sendo que alguns deles estão mesmo sedeados em zonas onde a célebre campinagem nunca existiu, por ausência de criação taurina. O Algarve levou com outra farda, aqui numa alegoria à mulher algarvia, com certa roupagem de muito duvidosa existência. Na Estremadura convencionou-se o típico traje feminino da Nazaré e as célebres sete saias, como no Alentejo só haveria ceifeiras (bem vestidas) e no Minho apenas o rico e vistoso traje de Viana do Castelo. Isso levou à formação, copiada, de muitos grupos folclóricos, que elegeram os referidos símbolos tradicionais, favoritos dos organismos oficiais, como representação exclusiva do seu trabalho. Nasciam assim grupos colegiais, de farda posta por exibirem apenas um tipo de traje. Um equívoco que prevalece em algumas formações folclóricas.

Espera-se que o “hábito não faça o monge” e não voltem os emblemas regionais como símbolos exclusivos de um Portugal continuadamente pitoresco nas campanhas turísticas que se anunciam.


Manuel João Barbosa
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Dezembro 2007 - Editorial : As fontes vivas

Generalizaram-se expressões como já não há nada para recolher, ou as fontes há muito secaram. E outras dentro da mesma estirpe. As pesquisas, vai tempo, acabaram no trabalho da maioria dos grupos de folclore, fazendo crer que as memórias vivas já esfumaram no tempo as usanças e costumanças da sua mocidade. Porventura assim será quando uma região etnográfica se desertificada das ditas fontes, que pudessem ainda brotar réstias de referências folclóricas ou da matéria etnográfica que se pretende arrolar. Aqui, todo o cuidado será pouco para não encher o cântaro numa fonte já inquinada.

O trabalho que publicamos no caderno central desta edição diz-nos como um agente cultural – ainda hoje! – pode encher baús de folclore, das cantigas às danças, e das tradições aos mais variados aspectos etnográficos. Tudo aquilo que registámos, em imagens e áudio, como o que vimos e ouvimos, é a prova cabal de naquele lugar o folclore, como a etnografia, moram em cada recanto da localidade, entrados que estamos no século XXI. Impõe-se dizer que o trabalho foi realizado sem qualquer preparação prévia dos intervenientes. Os versos que nos cantarolaram com harmoniosas e agradáveis melodias, como assim os remedeios que nos deixaram de algumas danças, são documentos convincentes de um folclore ainda vivo. E nenhuma voz absoluta poderá contrapor a realidade a que assistimos. Testemunhos como os que nos deixaram a senhora Custódia Maria, com a provecta idade de 83 anos, e a senhora Alexandrina Oliveira, de 70 anos, da Glória do Ribatejo, são a comprovação do facto folclórico ainda activo. E luzente no espírito daquelas anciãs.

Na terra gloriana, retratos assim são como cogumelos em campo de charneca; nascem em cada recanto.


Manuel João Barbosa
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